"Todo poder emana do povo", diz o parágrafo único do artigo 1º da Constituição. Mas, à luz dos fatos recentes, talvez seja mais honesto admitir a versão não oficial que parece reger os bastidores de Brasília: todo poder emana do polvo — uma criatura de múltiplos tentáculos, capaz de se infiltrar simultaneamente no sistema financeiro, nas estruturas jurídicas e nos centros decisórios do Estado.
A revelação de que o Banco Master, sob liderança de Daniel Vorcaro, destinou cifras que ultrapassam a casa dos R$ 300 milhões — e que, segundo o conjunto mais amplo de contratos, superam R$ 500 milhões em consultorias — a escritórios de advocacia expõe algo que vai além de números: revela um padrão de articulação entre dinheiro e influência institucional, precificando o poder.
Entre os contratados, não estão apenas advogados, mas figuras com histórico direto no comando de estruturas-chave da República. Ex-presidentes da Ordem dos Advogados do Brasil, como Marcus Vinicius Furtado Coêlho e Felipe Santa Cruz, aparecem na lista. Nomes com trânsito nos mais altos níveis da administração pública, da política econômica e do sistema financeiro orbitam o mesmo núcleo de interesses.
A Polícia Federal surge no contexto das investigações que apontam, inclusive, para a existência de "consultorias informais" envolvendo servidores do Banco Central — um dado que, se confirmado, eleva o grau de gravidade do cenário e reforça a percepção de permeabilidade entre estruturas técnicas do Estado e interesses privados.
O caso não se limita à advocacia. Ele sugere um modelo mais amplo, no qual diferentes esferas do poder — jurídico, econômico, regulatório e investigativo — passam a ser tangenciadas por um mesmo eixo de interesses. Além do STF e OAB, tais tentáculos já foram identificados no TCU, no Banco Central, na própria Polícia Federal, nas entranhas do governo do PT, no Senado, na Câmara. Pergunto: escapa alguma instituição?
O ponto central não é um indivíduo, mas o padrão: a sobreposição de redes. A Ordem dos Advogados do Brasil é colocada em posição desconfortável. Quando ex-presidentes da entidade passam a atuar em operações dessa escala financeira, a discussão não é sobre direito ao exercício profissional — isso é indiscutível. A questão é outra: quais são os limites éticos quando o capital simbólico acumulado em funções institucionais passa a ser monetizado em ambientes de alta sensibilidade política?
O que o caso do Banco Master explicita não é uma anomalia isolada, mas um modelo recorrente no Brasil: a circulação contínua de elites entre o público e o privado, com alto grau de interdependência, corrupção, e corruptores ativos e passivos. Ex-presidente da República, ex-ministros da Fazenda, ex-dirigentes do Banco Central, ex-presidentes da OAB — muitos deles hoje atuando como advogados ou consultores — compõem um ecossistema onde experiência, acesso e influência se transformam em ativos de alto valor.