Constituição de 1824: votar exigia renda mínima de 100 mil réis. Candidatar-se exigia 300 mil réis. O Brasil tinha 4 milhões de pessoas livres — apenas a fração com renda participava. A funil era formal e explícito: o cardápio era feito literalmente por lei, antes da "eleição".
MECANISMO ATIVO: renda como critério de acesso ao cardápio
Acordo entre presidente e governadores estaduais: cada estado elege quem o governador indicar. Coronéis controlavam o voto público das populações rurais. Resultado: apenas 5% da população votava. As "eleições" ratificavam um cardápio definido nas casas-grandes. A urna era protocolo, não escolha.
MECANISMO ATIVO: coação + voto público + analfabeto excluído por lei
Jango propunha reforma agrária, reforma urbana, reforma tributária e aumento de salário mínimo. O capital não aceitou o resultado previsível das eleições de 1965. Solução: eliminar a eleição inteira. O AI-2 (1965) cassou mandatos, extinguiu partidos e criou eleições indiretas. O cardápio foi eliminado e substituído por escolha da cúpula militar.
MECANISMO ATIVO: eliminação do processo eleitoral quando o resultado ameaça o capital
Após 21 anos de ditadura, a Emenda Dante de Oliveira (Diretas Já) foi derrubada pelo Congresso em 1984. Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral — órgão composto por políticos, não pela população. A redemocratização retornou com o cardápio controlado pelo Congresso, não pela urna direta. O eleitor aguardou até 1989 para votar em presidente.
MECANISMO ATIVO: intermediação institucional eliminando voto direto na transição
Primeira eleição direta para presidente em 29 anos. O Jornal Nacional (Rede Globo) editou o debate final entre Collor e Lula de forma favorável a Collor — exibindo o trecho mais favorável de Collor e o menos favorável de Lula. Sem regulação de mídia, a editoração jornalística de um debate pode alterar uma eleição. Collor venceu por 6 pontos percentuais.
MECANISMO ATIVO: curadoria midiática do cardápio em democracia formal
A Lava Jato revelou que o caixa dois das empreiteiras (Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez) não era exceção — era o sistema. PT, PMDB, PP, PSDB: todos recebiam. Isso não é corrupção marginal. É o mecanismo de financiamento da seleção pré-eleitoral via caixa não declarado — financiador decide quem tem estrutura de campanha real, quem não tem.
MECANISMO ATIVO: caixa dois como filtro informal do cardápio eleitoral
Rubens Ometto (Cosan): R$ 19 milhões, 189 candidatos, 15 partidos, 10 estados. Incluiu PT, PL, PSD, MDB, PP, Republicanos, PSB, PSDB, Podemos, Novo, PMB, Avante, União Brasil. 43% de eleitos. Em 2025 (sem eleição): R$ 2M ao PT + R$ 1,74M ao Republicanos. A estratégia não é vencer — é garantir que quem quer que vença, tenha recebido recurso do financiador e saiba disso.
MECANISMO ATIVO: pulverização transideológica = cardápio controlado independente do resultado
"Os proprietários não precisam comprar cada eleição. Precisam apenas garantir que as opções disponíveis não ameacem o sistema de propriedade que os criou."
— Noam Chomsky & Edward Herman, "Manufacturing Consent" (1988) · adaptação analítica ao contexto brasileiro